COTAS RACIAIS, UMA GRANDE DISCUSSÃO
Por entender que o assunto merece reflexão, decisão política desprovida de qualquer ingerência emocional, tenho evitado comentar, aqui, sobre a questão das Cotas Raciais. Entretanto, depois que um grupo de intelectuais escreveu e entregou um manifesto aos Presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado Federal se posicionando contrário, e outro se firmando a favor, e de igual modo indo ao Congresso deixar claro a necessidade da implantação das referidas Cotas, acredito que podemos, ao menos, abrir espaço para uma discussão sobre o tema.
Por isso, de imediato, quero mostrar minha opinião: concordo com os intelectuais que se posicionaram contrários. A simples criação de Cotas mais incentiva a discriminação, do que provoca a tão sonhada isonomia racial, é no que acredito. Assim, também, discordo da criação das Cotas Raciais, pelo menos, nos moldes que se quer implantar.
Penso que se elas, hoje, são necessárias, tendem a se tornar “separatistas” no futuro se eternizadas. Dizer que não existe discriminação no Brasil é querer esconder o Sol com a peneira, porém, não podemos esquecer que a miscigenação é uma realidade, com a qual o povo brasileiro convive ao longo de centenas de anos. É, por certo, um paradoxo, mas, com ele vivemos, com alguma alegria, o que não invalida a necessidade de aperfeiçoá-lo.
Para os que gostam de tomar os Estados Unidos da América como exemplo e lembram que lá as cotas foram usadas é de todo conveniente recordar, também, que o governo e o povo americanos as utilizaram com tempo determinado. E que lá a segregação dava-se de forma diversa de como acontece no nosso País. Aqui, há – à vista nua – uma discriminação mais sócio-econômica do que racial.
Assim sendo, a minha sugestão, que é a de tantos outros mais versados sobre o assunto, é a de que, se as Cotas são, de fato, necessárias, que elas sejam amplificadas e contemplem além dos afrodescendentes os marginalizados de todas as raças, pela nossa perversa política econômica. Que a Educação seja um compromisso de Estado e não um discurso vazio de políticos e que governos de qualquer corolário político-partidário assumam como deles e o execute, em toda a sua extensão.
Seguramente desse modo, haverá um dia não tão distante em que nossas escolas e faculdades estarão abertas a todos os Brasileiros. Pode ser que alguém ache que isto é um sonho, mas, eu não quero deixar de me permitir sonhar.
E você o que pensa sobre as Cotas?
Escrito por Ernâni Motta às 18h14
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SÃO PAULO VOLTA AO CAOS
São Paulo voltou a viver com o caos da insegurança. São pais de família mortos, simplesmente, porque são policiais, incêndio de agências bancárias, postos policiais e ônibus. Demonstração insofismável da certeza da impunidade a que chegamos.
Naturalmente, conseqüência da falta de inteligência e modernização do aparato policial e do sistema carcerário do Estado de São Paulo, como de todo o país, somada à frouxidão do nosso Código Penal ou da sua aplicação, porquanto, não é raro se ouvir: Lei há, o que falta é o seu cumprimento.
Politizar o problema é escarnecer com o cidadão, contribuinte compulsório, que espera que o Governo cumpra com a sua parte. As trocas de acusações são inócuas, desculpem a redundância, e só potencializa o comando paralelo exercido pelos meliantes.
Os jornais hoje dizem que o senador Jorge Bornhausen, presidente nacional do PFL, um dos partidos que apóia a candidatura do ex-governador paulista, Geraldo Alckmin, à Presidência da República, desconfia da existência de elo entre o Partido dos Trabalhadores – PT – com o PCC, facção criminosa apontada como responsável pelos ataques.
O senador Bornhausen - é bom lembrar - é aquele que, no auge da crise política que o país atravessou, referindo-se aos seus opositores, disse a plenos pulmões que “estaríamos livre dessa raça, por pelo menos 30 anos”.
Escrito por Ernâni Motta às 18h07
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O QUE OS CANDIDATOS DIZEM E FAZEM
Enquanto isso, o ex-governador e candidato à Presidência, pela coalizão PSDB/PFL, Geraldo Alckmin, recomendou – que eufemismo maldito! –, ontem, a sua equipe que incluísse novos destinos a seu roteiro de visitas. Com isso, Alckmin quer evitar que o problema de segurança no Estado, que ele governou até março último, monopolize o debate eleitoral.
Por outro lado, o nosso Presidente, candidato à reeleição, afirmou, em Salvador, que São Paulo enfrenta uma “indústria do crime” e não bandidos comuns. – Se têm controle, não poderia acontecer o que está acontecendo. Na hora em que acharem que é oportuno (o envio de tropas) que nos digam. Se São Paulo continuar achando que a situação está normal, o governo federal não pode fazer nada, disse Lula.
Aí, o povo... bem, o povo que se vire como pode.
Escrito por Ernâni Motta às 18h05
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DO PORTAL BRASILEIRO DE FILOSOFIA
Julgando Zuzu e a Globo
Zidane foi considerado o melhor jogador da Copa de 2006, na Alemanha. Mas sua atuação não foi comentada exclusivamente por tal feito. Quem assistiu o jogo de decisão, Itália versus França, lembra bem que Zidane foi expulso no finalzinho da partida. Motivo: deu uma cabeçada no peito de um italiano, revidando com agressão física uma outra agressão, um xingamento. Como podemos avaliar o que Zidane fez?
Pelas regras do futebol, não há o que discutir. Zidane não podia revidar, foi expulso por meio de uma decisão justa, correta, legítima do árbitro. Pela opinião dos cronistas esportivos, o correto seria Zidane demonstrar “sangue frio” e “não se deixar levar por provocações”. E pela filosofia, o que cabe dizer? Ah! Nesse caso, há mais coisa para se notar.
Quando o filósofo chega ao assunto, a questão se transforma. Não se trata de avaliar Zidane, somente, mas também a “condenação” da imprensa sobre ele – muitas vezes uma condenação forçada, digamos assim. Ou seja, quando avaliamos a avaliação da imprensa, em especial da televisiva – a da Rede Globo, capitaneada por Galvão Bueno – ouvimos quase que um “repeteco” de outras Copas. Por exemplo, também Maradona passou por situações semelhantes, e os cronistas da época – bastante tendenciosamente – não deixaram de observar: “não é o melhor do mundo”. Eles diziam isso por causa da postura de Maradona, um tanto agressiva às vezes. Ao usarem tal frase, “não é o melhor do mundo”, eles estavam querendo trazer de volta o título ao Pelé, o brasileiro – o “atleta do século”. Não é difícil perceber que para esse tipo de opinião o comportamento que deve ser premiado, que deve ser considerado o correto, é o do homem de sangue frio, o calculista. E é aqui que o filósofo pode colocar o dedo.
O filósofo, aqui, pode simplesmente lembrar que o comportamento calculista, sangue frio, impassível, é exatamente aquele que é condenado em várias outras situações. Quando alguém não revida determinado tipo de agressão pode ser avaliado como covarde ou como indiferente ou como aproveitador ou oportunista. Para determinadas situações, a opinião comum é a de que a altivez é a medida correta, e essa mesma opinião comum condena a altivez em outras situações. O que é que está regrando esse comportamento avaliativo?
Em filosofia, de um modo bastante geral, a atitude daquele que se mantém altivo, que não revida e busca estar acima dos dramas, é chamada de “atitude estóica”. Quando e como isso começou?
Platão é quem iniciou com a idéia de opor a “razão” à “emoção”, condenando a segunda. Aristóteles procurou resgatar a utilidade da “emoção”. Todavia, bem mais tarde, na época do Império Romano, uma das atitudes éticas que vingou foi a da Escola dos Estóicos[1], no interior da cultura helênica, isto é, greco-romana. A idéia básica dessa escola de filosofia era simples: “a vida é agressiva”. Sendo assim, seria uma loucura reagir a tudo, uma vez que as agressões são o cotidiano. Seguir as emoções nos levaria às atitudes irracionais, e isso nos tornaria frustrados e infelizes. A regra básica se fez segundo o lema: minimize seus desejos e você minimizará seu sofrimento. Foi uma escola de filosofia que conquistou adeptos tanto entre os escravos, com o caso de Zenão[2], quanto de imperadores, como o caso de Marco Aurélio[3]. Eles foram pregadores da apatia (apathos: sem “pathos”, sem paixão ou sem emoção).
Eis aí que voltamos a Zidane. Ele teria terminado sua carreira de maneira infeliz, pois “perdeu a cabeça”. Ficar “com a cabeça no lugar”? Sim, o correto, para quem o julgou desse modo, seria o de se manter estóico. A “emoção” não deveria superar a “razão”, e esta teria de seguir o seguinte raciocínio: agressões há por toda parte, o que se pode fazer contra elas é simplesmente ignorá-las.
É interessante notar que essa não era a opinião, por exemplo, de Aristóteles. Ele, que ensinou a virtude da “meia medida”, não o fez para dar validade ao comportamento que, depois dele, veio a se chamar de estóico. Ao contrário, para ele, o homem que não viesse a sentir raiva diante de uma agressão, dependendo do caso, seria chamado de tolo – “um banana”, é o que dizemos. É claro que entre sentir raiva e se conter, e sentir raiva e revidar, há uma certa distância. Todavia ...
Mas muito da nossa cultura está sob o manto do estoicismo. Quem “perde a cabeça” e se exalta em uma discussão, é tido como o perdedor. Invalidamos, muitas vezes de maneira pouco inteligente, as falas daqueles que se exaltam. Eles estariam errados, já de antemão, por se exaltarem. Ora, mas a questão que fica é: o exaltado, o exagerado, o que faz tudo com muita emoção, também já não foi considerado na história do pensamento, e mesmo entre nós, o “gênio”? Quem assistiu o time do Brasil na Copa, e viu que todos os jogadores “souberam sair derrotados e calmos”, não ficou irritado com tal atitude? Não ficaríamos mais felizes se ao invés de vermos o Roberto Carlos arrumando a meia, tivéssemos visto ele brigando no jogo o tempo todo? Não seria melhor para ele e para nós que ele saísse expulso por estar com as “emoções” exaltadas, e não do modo que esteve? E isso não vale para todos os outros jogadores brasileiros e, estranhamente, também para o técnico Parreira? Não seria Zidane, aquele jogador não-estóico, que estava naturalmente com os nervos à flor da pele em uma final de Copa, o comportamento desejado? E se é assim, qual a razão de termos embarcado na opinião comum da Globo, pela boca de Galvão Bueno? Como filósofo e como pessoa, não consigo condenar Zidane. Ao contrário, eu não imagino que eu não faria como ele. E você?
PS 1: Nunca pegue na Internet um texto apócrifo, isto é, um texto sem autor. Tendo autor, procure saber quem é ele, se tem uma formação confiável. Um site informativo e o único que eu recomendo no assunto, ao menos em português, é o http://greciantiga.org, do médico Wilson Ribeiro Jr. PS 2: Sobre o Estoicismo, o melhor texto em português continua sendo a coleção de História da Filosofia de Nicola Abbagnano. PS 3: A coleção “Os Pensadores”, a Abril Cultural, possui um volume sobre Sêneca e Marco Aurélio. Os livros desta coleção podem ser adquiridos facilmente em sebos. Recomendo a edição de 1978.
Paulo Ghiraldelli Jr., O “filósofo da cidade de São Paulo”.
Escrito por Ernâni Motta às 18h02
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